ou
Lembrando...
Era madrugada de domingo pra segunda. Mais exatamente três horas e seis minutos. Carnaval. Quem não estava no salão do clube, no centro da cidade, estava abraçado a algumas garrafas de cerveja ou um tubo de lança-perfume pelas ruas estreitas de paralelepípedo. No salão, crianças adultas se fantasiam de adultas crianças e brincam o que só se permite brincar nesses dias. Advogados, engenheiros, comerciantes, farmacêuticos, juizes, uma vastidão chamada de doutores e os próprios detentores desse honrado título social. Não estavam lá os feirantes, os pedreiros, as donas de casa, os ajudantes, os carregadores, os moleques que divertem a festa nem os moleques que estragam a festa. Todos esses preferiam as ruas, ou talvez preferissem os bailes, mas como nunca experimentaram desses, diziam que era na rua que se fazia o verdadeiro carnaval. E o mesmo era dito do salão. A banda tocava marchinhas de Carmem, Aurora, Lamartine, Orlando, Chiquinha e de muitas outras vozes da festa. O rei momo, gordo como uma leitoa na véspera de Natal – uns mais etilicamente animados já o imaginavam com uma maçã nos dentes -, agitava quem estava se cansando pelos cantos. A canja estava para ser servida, curando a bebedeira de todos os anfitriões de quem ainda estava chegando.
O ano era 1985. Na TV, a Mangueira explodia com o samba “É carnaval / O samba faz vibrar a multidão / Lá vem mangueira / Não posso conter a minha emoção / Vamos reviver o rio antigo / Onde chiquinha se fez imortal / Oh! deusa da folia / Rainha do meu carnaval / Eu sou da lira / Não vou negar / O abram alas que eu quero passar / Só não passa a saudade / A saudade que ficou no seu lugar / Liberdade / Oh! falsa realidade / Liberdade / O sonho foi morar n’outra cidade / Desprezou a burguesia / E o requinte dos salões / Abraça a boemia / E deixa na boca do povo / Mais de mil canções”. A Estação Primeira não foi a campeã daquele ano, mas deu o tom de um passado presente com saliva de gente ao menino que estava para sair do ventre da mãe. As contrações aumentaram e o suor na testa do pai também. A amada futura irmã mais velha, já carinhosamente enciumada, dormia quando o casal saiu em direção ao hospital. Ela no banco da esquerda. Ele enxugando com a direita o suor que agora escorria na testa da mulher.
Estava fantasiado de Zorro, de capa e espada. E como se estivesse em uma taberna acompanhando o Sargento Garcia em um dia de folga, ficou levemente embriagado. Estava lá desde as dez da noite, entre piratas, fadas, cavaleiros, princesas e super-heróis. E mal sabia que estava prestes a escutar um pedido de socorro e que sairia correndo para atender, como seu personagem na série de TV.
Os olhos arregalados mal podiam se manter com a respiração agitada que o corpo exigia. A barriga era enorme. A criança já não cabia mais ali dentro. “O doutor já está vindo”, tentavam acalmá-la. E não tão rápido quanto o herói, chegou o Dr. Zorro, já sem capa e espada, mas ainda sim o Zorro. Trocou o chapéu preto que caía nas costas pela máscara cirúrgica que tampava a boca e as narinas. O avental branco com seu nome bordado no peito acabou com toda a fantasia. Dele, não da criança que, depois de anos, mesmo adulto, era fã do Don Diego de La Vega.
“Fórceps”. “Gaze”. “Engov”.
O médico não disse isso. Mas bem que podia. O parto foi normal, mesmo passada a hora em que este método era o mais indicado. A mulher teve que fazer muita força. O médico teve que fazer muita força. O pai, do lado de fora, também fez muita força. Só o bebê que não. Tinha quatro kilos e trezentos gramas. Se peso é igual à força, era o suficiente.
E foi assim, puxado, que respirou pela primeira vez nesse mundo. Inspirou o ar puro da cidade pequena, o odor do sangue da mãe, o suor de todos na sala e o cheiro de cachaça do médico. E foi o melhor cheiro que já sentiu em toda a vida. Aroma que passou a perseguir por onde passasse.
“Liberdade! / O sonho foi morar n’outra cidade / Desprezou a burguesia / E o requinte dos salões / Abraça a boemia / E deixa na boca do povo / Mais de mil canções”
Sexta-feira, Fevereiro 23, 2007
18/02
Autor: Vinícius às Sexta-feira, Fevereiro 23, 2007
Tem mais desse? Memórias
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4 conversaram com o autor:
UAU Vini! Vc nasceu pra ser poeta msm! Dá muito gosto ler o que vc escreve. Continue sempre assim.
PARABÉNS!
Nesse dia certamente nasceu uma criança encantada... que encanta, sem dúvida e que transforma há exatos 22 anos o mundo em um lugar melhor e mais humano... amo vc!!
Fê!
Obrigado Pedrinho e Fê. Valeu por um dos melhores 18/02 de toda a minha vida.
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