quarta-feira, setembro 10, 2008

Este blog morreu.

ou
O falecimento de um blog e a certeza da missão cumprida do autor.

É com grande pezar e cabisbaixa tristeza que comunico a morte deste blog. Não sinto vergonha de externar meus sentimentos a vocês, poucos e fiéis leitores, que acompanharam toda a trajetória do Conversas Empolgadas. Mas há muito tempo ele já se desfalecia. Vocês podem perguntar: “Por falta de tempo?” E os mais velhos vão dizer “tempo é questão de prioridade”. E o Conversas, que Deus o tenha, infelizmente foi perdendo ao pouco seu espaço no relógio deste que vos escreve.

As histórias não acabaram, muito pelo contrário. Seria possível escrever anos e anos sobre tudo o que vivi apenas no mês de agosto. Porém, isso representou uma esperança para o morimbundo, daquelas que fazem o doente melhorar de repente, mas que são na verdade um último gás, um último sonho.

O Conversas viveu intensamente, e isso é que importa. Cumpriu sua missão de materializar a empolgação do autor e foi além: gerando discussões, inspirando a busca por novas histórias e motivando leitores a se embrenharem pelo mundo das letras. Só para você saberem, suas últimas alegrias antes da partida foi ver nascer o http://muzakandroyalties.blogspot.com/ e o http://credoemcruis.blogspot.com/, sobre os quais ele tinha certeza de sua influência direta.

Mas o Conversas Empolgadas não nasceu para viver abandonado. Ele sempre se importou com o conteúdo – dele e de quem o visitava. Por isso conquistou vocês, leitores que não o abandonaram na época de vacas magras. Tenho certeza que foi pensando nisso que ele exigiu que eu desligasse os aparelhos.

Seu último pedido foi para que não houvesse um epitáfio. Lápides não suportam mais do que quatro ou cinco palavras. Ele precisaria de mais.

quinta-feira, junho 12, 2008

Um post na voz de Luciano do Valle.

ou
O que estão fazendo com o futebol?

Vendo eu e meu pai assistindo ao primeiro jogo da decisão da Copa do Brasil entre meu Corinthians e o Sport de Pernambuco, minha namorada me perguntou quando foi que eu virei corinthiano. Pergunta que, de tão fácil a resposta, ficou difícil responder. “Desde que eu me lembro por gente” disse. Ela não entendeu. “Quando comecei a andar e me deram uma bola. Eu a chutei e gritei que era gol do Corinthians”, me expliquei.

Ela já havia tentado assistir a alguns jogos comigo, mas sempre achava graça ou se indignava com minhas reações diante da TV. Mas acho que a resposta sobre quando virei corinthiano mudou um pouco conceito dela sobre aqueles “11 homens correndo atrás de uma bola”. Tanto que ela decidiu assistir ao segundo jogo da decisão comigo (pé-frio?), em casa. E aí eu me surpreendi. Após os dois gols do time da casa, era ela quem estava dando chutes no ar e conversando com os jogadores em campo. Mas isso de nada adiantou. O Timão perdeu.

Ela virou corinthiana? Fanática por futebol? Comprou uma camisa no dia seguinte? Não, não e não. Ela simplesmente compreendeu o que o futebol representa na vida de milhões de pessoas. Pela primeira vez ela sentiu o futebol, fez do seu indivíduo uma parte indivisível da massa, fez da torcida uma fé.

E por essa fé, que muitas vezes é a única na vida de uma pessoa, posto um vídeo aqui no Conversas Empolgadas. Isso aconteceu ontem, antes da transmissão do jogo. Seu protagonista é um dos mais importantes nomes do esporte no Brasil – não só para o futebol. Dentre seus feitos, transformou a Bandeirantes no Canal do Esporte, impulsionando nacionalmente modalidades como o Vôlei masculino (procure saber sobre o Desafio Brasil X Rússia no Maracanã).

Pois esse homem ontem teve a coragem de expor uma (das) situação vergonhosa no “país do futebol”: uma classe do jornalismo, se é que se pode chamar assim, esportivo. Não vou comentar o vídeo pois tudo, tudo o que ele falou eu assino embaixo, inclusive os nomes citados. Assistam e, se concordarem, compartilhem.

E o que o vídeo tem a ver com o início desse post? Todos esses nomes citados pelo tão importante Luciano do Valle nunca, jamais sentiram o futebol como minha namorada ontem e milhões de pessoas desde que se lembram por gente. Eles são simplesmente aproveitadores do significado do futebol para milhões de pessoas. O meu Ibope eles não têm.

terça-feira, abril 29, 2008

Uma conversa empolgada sobre a Virada Cultural

ou
A virada cultural e mental do autor.

“Gente que vem de Lisboa
Gente que vem pelo mar

Gente que vem de Lisboa
Gente que vem pelo mar”

Sempre me soou sensacional a idéia de ter vinte e quatro horas seguidas de shows e apresentações artísticas em São Paulo. Mas para mim, era como se fosse em outro país. Nunca me passou pela cabeça sair de casa e desbravar o centro de São Paulo recheado de muvuca, violência e shows como o dos Racionais, ano passado. Mas nesse ano, um palco especial me convencia a sair de casa.

“Seu doutô, me dê licença
Pra minha história contá
Hoje eu tô em terra estranha”

E como “em terra de vizinho, boi é vaca”, peguei um tênis, bermuda velha e camiseta idem. Não cogitei ir aos shows de Gal, Zé Ramalho e Sá Rodrix e Guarabira, que foram no sábado, à noite. Um engano, se eu soubesse. Saí de casa lá pela uma da tarde no domingo. Peguei o metrô que, além de funcionar em tempo integral durante a Virada, oferecia um bilhete promocional especial para iria curtir o evento. Fui direto para o Mercado Municipal, que nesse final de semana se chamava Mercado Caipira.

Lá vi Tinoco, do Tonico, apresentando a dupla mato-grossense Cacique e Pajé, dois índios violeiros que convidaram a entrar no palco um contador de causos e tocador de berrante muito bom. Enquanto ouvia aquelas modestas modas, já sentia que estar ali era uma coisa que eu deveria estar fazendo desde às 18h do dia anterior.

Mas eu não fui até para vê-los, apesar de serem ótimos. Além de seus vitrais, pastel de bacalhau e sanduíches de mortadela, o Mercado contaria com a presença de Pena Branca, um dos meus grandes ídolos – e aquele me convenceu a ir, finalmente, na Virada. Quando Cacique e Pajé encerraram simpaticíssimos seu show, o palco começou a ser preparado para o Pena Branca. Eu esperava que entrassem com ele mais um violeiro e no máximo um sanfoneiro. Me assustei.

Entraram sim um violeiro e um sanfoneiro. Mas subiram ao palco também duas animadas garotas com seus instrumentos de percussão e um músico que chamava atenção pelo que carregava: um contra-baixo, um violino e uma rabeca. Nessa hora tive certeza: esse seria um dos melhores shows da minha vida. Não me enganei dessa vez.

“Oh Deus salve o oratório
Oh Deus salve o oratório
Onde Deus fez a morada, oiá, meu Deus
Onde Deus fez a morada, oiá

Onde mora o Calix Bento
Onde mora o Calix Bento
E a hóstia consagrada, oiá, meu Deus
E a hóstia consagrada, oiá

De Jessé nasceu a vara
De Jessé nasceu a vara
E da vara nasceu a flor, oiá, meu Deus
Da vara nasceu a flor, oiá

E da flor nasceu Maria
E da flor nasceu Maria
De Maria o Salvador, oiá, meu Deus
De Maria o Salvador, oiá”

Foi com Calix Bento, uma das minhas músicas preferidas, que ele abriu um show, logo depois de cumprimentar o público com um sonoro: “Bããããão?” e depois da respostas das pessoas: “Bão tamém”.

Nunca tive conhecimento de um grupo caipira, mas a harmonia daqueles instrumentos em cima do palco era perfeita. A rabeca conversava com a viola, que rasqueava acompanhada do acordeon, que era interessantemente surpreendido pelos repiques da animada percussão.

Cuitelinho, Gente que vem de Lisboa, O cio da terra, Vaca Estrela e Boi Fubá, Moreninha linda e Cabelo Loiro foram algumas das passagens que Pena Branca me ofereceu para ir para casa. Aceitei todas, cantei em voz alta, de olhos fechados e jeito tímido, bem caipira.

Apesar de curto, o show se encerrou com a certeza geral de que aquela figura que tanto brincou com o público era um dos maiores expoentes da música nacional. Mas num era, uai?

Tomei o rumo de casa, mas estava animado demais com o que a Virada tinha acabado de me proporcionar. Decidi ver o que mais estava rolando pelo antes temido centro de São Paulo - uma das melhores escolhas que fiz.

Passei por uma balada que acontecia em frente ao Mosteiro de São Bento. Como? Música eletrônica em frente a uma igreja? Sim. A balada era silenciosa. Os DJ’s distribuíam fones de ouvido. Quem ficou de fora, achou coisa de maluco ver aquelas pessoas dançando sem só nenhum. Que aceitou a brincadeira, adorou.

De lá passei no Palco Instrumental e fiquei fascinado pela idéia: durante as vinte e quatro horas, o palco deveria ser freqüentado por um número determinado de músicos que improvisavam o tempo todo. Saía um, entrava outro e a música continuava. Sensacional.

Mas eu não queria ficar parado em um palco só. Andei até o palco de capoeira, depois até o Teatro Municipal – que contava com uma fila imensa -, passei por um grupo de teatro e um circense. Fantástico. Cultura no ar, respirando inspiração.

Na São João, o palco estava sendo preparado para o Jorge Ben Jor. Continuei caminhando até ouvir de novo o som tão bom da viola: era Inezita Barroza, emocionada por fazer um grande show no centro da capital paulista. “A marvada pinga é que me atrapáia”.

Droga. 17h. O dia já estava acabando e eu só vi isso! Quero mais! Mais Virada Cultural!

Corri até o palco onde sabia quer iria encerrar com chave de ouro a rodada de shows: Boteco de Bambas. De novo, não me enganei. Já haviam passado por ali Nelson Sargento e Dona Ivone Lara. Quando cheguei, Quinteto em Branco e Preto agitavam aquele dia, quase noite, que não queria acabar.

“Chora
A comunidade chora”

E já emendavam:

“Vejam
essa maravilha de cenário”

Ahhh! Meu Deus! Quando começa a Virada Cultural do ano que vem? A sensação que fica é que no ano que vem quero participar das 18h às 18h, sem pausa.

quinta-feira, abril 24, 2008

Eu, o coisa ruim.

ou
Por que para alguns o autor usa o próprio sangue como tinta para escrever esse blog.

Acontece que no trabalho andam me chamando de diabo, coisa ruim, filho do demo, Lúcifer, Belzebu, cão, grão-tinhoso, filho de chocadeira, anticristo, encardido, Satanás, Mefisto, capeta, Satã, excomungado ou simplesmente, Aquele.

Como eu não tenho um rabo pontiagudo, não ando com um tridente na mão, tampouco tenho chifres nem sou vermelho, acredito que minha relação com o filho de chocadeira seja pela representação do mal. Mas como, logo eu, que estudei toda a minha vida em colégio de freiras, me tornei parecido com um ser metade homem, metade bode, com pentagramas invertidos tatuados no corpo?

Para descobrir, vamos retomar a história desse personagem tão intrigante. Acredito que conheci o coisa ruim em uma história que ele tinha forma de cobra, oferecendo uma suspeita maçã para jovem casal que andava desnudo e sozinho pelo paraíso. Jovens, desnudos e sem ninguém para tomar conta, é claro que eles iriam experimentar da fruta.

Depois disso, escutei pela boca da Irmã Luci, minha professora de catecismo e cruzeirense fanática, que o excomungado tentou Jesus enquanto este vagava em grande agonia por um imenso deserto. Dizem que a tentação apareceu para o Filho de homem em forma de mulher. Se fosse em forma de água, não sei se a história seria diferente. Até iria perguntar isso para Irmã Luci, mas nesse dia ela estava salvando minha vida: a Irmã Julita, madre do colégio, sabia que eu estava matando aula para assistir Itália X Coréia pelas oitavas de final da Copa do Mundo. E eu estava mesmo, junto com minha amiga cruzeirense fanática, que achava linda a torcida oriental toda de rosa. Mas acontece que a Irmã Julita nos encontrou. Na hora, pensei: “Estou suspenso”. Mas foi aí que interveio a Irmã Luci e disse: “Ele só está tirando uma dúvida comigo sobre o catecismo”. A tal dúvida seria sobre a tentação em forma de copo d’água para um homem que está no deserto, mas a gente não esperava que a azurra fosse perder aquele jogo e acabei esquecendo.

Para quem achou estranho, está certo mesmo. Na Copa de 2002 eu tinha 14 anos e estava fazendo catecismo. Atrasado? Muito velho? Não para quem só batizou com sete anos, depois de uma forte pressão da avó. Será que isso já era um sinal do que viria a me tornar?

Bom, depois do episódio acima, comecei a escutar histórias mais racionais sobre o demo. A que tem mais sentido para mim é a versão de que o tal foi uma invenção da Igreja Católica logo em seus primórdios, pois estava perdendo fiéis para o paganismo. Assim, criaram um símbolo de toda maldade, que representa assustadoramente o oposto das características e poderes de Deus. Com isso, os fiéis ficaram com medo e se mantiveram ajoelhando e fazendo o sinal da cruz sempre que entram em uma casa do Senhor.

Depois que saí do colégio li alguns livros em que o capeta aparecia. O primeiro foi a Divina Comédia, de Dante Alighieri. Eu não sei quantos portões do inferno abriram suas portas para mim. Achei o livro bem difícil na época. Em compensação, em O evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago, me fez olhar o cão com outros olhos. Nesse livro, há um diálogo sensacional entre Jesus, Deus – o pai dele – e o encardido. E aí ficou claro: não existe Deus sem o Belzebu, assim como não há céu sem o inferno, nem bem sem o mal, nem felicidade sem a tristeza, nem paz sem a turbulência, nem claro sem o escuro e por aí vai.

E se o bem e o mal sempre andam emparelhados, a comparação entre eles é inevitável. Vamos lá: as meninas da escola gostavam mais dos meninos bonzinhos ou dos malvados, que sempre as maltratavam? Ponto para o mal. Entre um PHD em biologia marinha e um especialista em emitir todo o alfabeto em um único arroto, qual é o mais legal? Dois a zero para mal. Esta vai para os leitores homens: duas meninas estão dando mole para você. Você prefere a que tem fama de anjinho ou a que foi fantasiada de diabinho na última festa à fantasia? (E não vale responder: “É só pra pegar ou pra namorar?”) Pronto. Três a zero, goleada do Satã.

Mas acontece que eu nunca fui aquele que maltratava as menininhas na escola. Muito menos consegui arrotar as vogais. E passei muito longe de pegar a diabinha. Então por que me chamam, logo eu, de a encarnação do anticristo?

Talvez seja porque eu adorei quando o Edílson fez embaixadinhas na final contra o Palmeiras. Ou quando o Kérlon, o foquinha, faz suas gracinhas para irritar o adversário. Também pode ser porque eu compartilhei das piadas sobre atirar alguma coisa do sexto andar ou elogiar alguém usando o termo “moça bonita”. Ou até mesmo porque eu amo o House, uma boa ironia e uma maldade bem encaixada. Fala sério, quem não riu da hilariante idiotice de um pároco se batizar “O padre voador”, amarrar mil bexigas nas costas e alçar vôo?

Acontece que eu odeio o tal do politicamente correto tão vigente hoje em dia. Me irrita muito um debate político com “rasgação de seda”. Ou uma entrevista que começa com “Temos que respeitar o adversário”. Arrrrrrrrre! Como é chato! Isso se reflete bem em publicidade. Hoje o CONAR bane publicidade de bola porque uma criança pode machucar caso um amiguinho com um chute forte demais. Esse ano saiu um projeto de lei que proíbe qualquer piada que cite homossexuais. Falou "viado", pode ser preso! Não é demais? Fique sabendo de uma organização GLS que processou o Maurício de Sousa porque em um de seus gibis o Cebolinha chamou o Cascão de "menininha". É ou nã é um crime?
Ah, claro. Não posso esquecer de que hoje não pode chamar preto de preto. E se usar o termo "negro" , que não seja da maneira pejorativa. E o anão que virou "deficiente de características verticais"? Pelo amor de Deus, vai? Ou seria do Diabo?

Para mim não tem coisa mais aporrinhadora do que em uma conversa em que o interlocutor inicia todas as suas frases com “Na minha opinião...” ou “Assim, o que eu acho...”. É claro que é a sua opinião, eu perguntei pra você, oras. Ou então “Não que não esteja bom, mas...” Ahhhhhhhhh! Ninguém vai bater porque falou que é ruim! Quando escuto isso, me dá até vontade de me defenestrar do sexto andar.

Você já trabalhou com essa pessoa, né? Ela é boa?” Resposta: “Não”, se ela não for. “Sim”, se ela for. Aí você dá os porquês. Mas jamais um “olha, assim, pode ter sido comigo, não sei, mas...” Se for pra ser assim, prefiro que meu sobrenome seja grão-tinhoso.

E também, sabendo de toda aquela história de que não existe o bem sem o mal, não pode haver o politicamente correto sem o impoliticamente correto, certo? Eu prefiro integrar esse time. Desde que a camisa seja vermelho-sangue, é claro.

terça-feira, abril 22, 2008

A vingança, arremessada pelo sexto andar.

ou
A versão rodrigueana do autor sobre o crime que abalou o país.

Obs1.: Qualquer coincidência de nomes, graus de parentesco, fatos e conclusões da Polícia Científica não passa de uma.
Obs2.: Esse texto não tem a intenção de exprimir mais uma opinião sobre a coincidência acima.

A entrevista

“Somos completamente inocentes.” Foi o que disse a madrasta acusada, na primeira entrevista do casal após o crime. Mas nas ruas, a opinião era unânime: “Safados, sangues-frio, deveriam ser presos e julgados à voto popular. Se não isso, mereciam ser expostos em praça pública para que o povo decidisse seu destino.” Entretanto, como já disse, toda unanimidade é burra.

A perícia

“Eu jurei, diante do caixãozinho dela, que não sossego enquanto não descobrir quem fez isso com ela”, foi uma das frases do pai. Mas enquanto ele dizia isso, a minuciosa perícia da Polícia Científica concluía que os fatos foram os seguintes: a confusão começou no carro, enquanto voltavam do supermercado, onde a madrasta bateu na menina, que deixou nele uma prova cruel: seu próprio sangue. Como João, aquele do conto infantil Homônimo e Maria, deixando migalhas de pão como pistas do caminho, seu rubro e infantil líquido das veias marcaram todo o caminho do carro até o quarto, “todo enfeitadinho, do jeito que ela queria”. No quarto, aliás, os peritos descobriram que o sangue caiu de uma altura de 1,25m, precisamente a mesma de quando o pai, agora acusado de assassinato, carregava sua filha.

Além disso, para estancar o sangue da garota, os pais, antes maiores instituições da constituição familiar, hoje, talvez assassinos, usaram uma fralda que foi encontrada mergulhada no tanque junto a um produto que em sua propaganda prometia retirar qualquer tipo de manchas, mas não dizia para ser usado com resíduos humanos. “Isso não existe”, foi o que disseram eles na então entrevista.

Mas a perícia não parou por aí. Ao confundir o estado desacordado da filha, resultante da asfixiante ira da madrasta, o pai acreditou que sua “mocinha” estivesse morta. Então, usou a tesoura para cortar a grade proteção da janela e colocou a filha do lado de fora. Os resquícios da grade em sua camiseta, que ali estavam devido a uma forte pressão entre os dois corpos – grade e camiseta, e não pai e filha -, garantiam esse fato. Depois disso, abriu cada um de seus dedos a uma altura de seis andares e entregou a menina à morte.

12 minutos depois o resgate foi chamado. Em pouco tempo a polícia também chegou e desconfiou da versão contada pelos presentes na cena: uma terceira pessoa fez isso com a menina. Começava aí um dos maiores circos da mídia moderna.


O circo da mídia

Garantindo um aumento de 15 pontos no Ibope, a notícia esteve presente em todos os telejornais. O prédio da infelizmente famosa janela do sexto andar logo ganhou uma pequena multidão na entrada. A delegacia onde os envolvidos prestavam depoimentos ficou lotada – em São Paulo não foi registrado mais nenhum crime. Tanta gente que vendedores de algodão doce e pipoqueiros também marcaram presença, mas não para gritar “Justiça!” ou “Covardes!”, mas anunciando seus produtos mesmo. Após a entrevista, psiquiatras forenses analisaram cada uma das falas e reações “O tempo todo eles dizem que são uma família harmoniosa, mas em momento algum se olharam, se deram as mãos”. A emissora para a qual o casal a concedeu a entrevista ganhou um bom dinheiro revendendo as imagens para outros canais. E até um padre, famoso por suas missas recheadas de discos de platina e top 10, realizou um show pela paz. E nele estavam presentes milhares de pessoas, inclusive uma, que passou despercebida durante toda a história.

Os principais envolvidos na história são o pai, a madrasta e a menina. Os dois primeiro garantem, como álibi, que uma terceira pessoa esteve no apartamento e cometeu o crime. Mas quem? “É isso que nós gostaríamos de saber”.

Os envolvidos

“Nunca encostei um dedo dela”, disse o pai. “Um dedo”, completou a madrasta. “Somos uma família harmoniosa”, emendou o primeiro. “Temos brigas sim, mas toda família tem”, continuou a segunda.

Era nítido que não se amavam. Pelo menos não naquele momento. O pai, pintado como um dissimulado, esboçava algum sorriso. A madrasta, que carregava nesse título todo o terror das histórias infantis, chorava compulsivamente. Porém, se madrasta é, está substituindo uma figura de fundamental importância na instituição social primária.

A mãe da menina assassinada foi protagonista em pelo menos de dois momentos durante toda a história. O primeiro era no depoimento, no qual disse que a filha nunca reclamou de nada quando chegava da casa do pai. O segundo era no tal show da paz, realizado pelo padre. Lá, ela apareceu sorrindo e cantando. Sorrindo talvez por ter conseguido o que tinha sido o combustível de sua vida por tanto tempo.

A história de antes

Eles se conheceram no colégio. Ela usava meias até o joelho e saia rodada. Ele, gel no topete e jaqueta de couro. Ela se apaixonou quando ele se agachou para pegar o material seu material que tinha deixado cair. Ele, quando ficou sabendo, através das amigas dela, que ela o desejava tão bem.

Casaram-se após quatro ansiosos anos para ela. Para ele, após um golpe de barriga que caiu feito um pato. Antes apaixonados, eles passaram a morar juntos sem trocar uma palavra. A menina cresceu sem presenciar um beijo do pai na mãe, mas sim, em suas amantes, que o homem fazia questão de levar em casa e lhe servir o café da manhã.

Nesses anos, enquanto a filha crescia na mesma proporção que o ódio de seus genitores, conseqüências terríveis marcariam para sempre a vida dessas três tristes almas. O pai, crente que foi vítima do golpe e que perdeu para sempre sua vítima, procurava fora de casa o amor que não tinha em casa. A mãe passou a ver a filha como o agente causador da discórdia entre ela e seu amado, semente que germinava distância entra ela e seu príncipe.

Era um sábado quando a mãe chegou em casa e encontrou o guarda-roupa vazio. No quarto da filha não mais estava o a caminha, as roupinhas e os brinquedos. Uma carta do marido dizia que não se veriam nunca mais. Que ela podia esquecê-los. Que foi um erro começar aquilo tudo.

O desfecho

Lá, ela apareceu sorrindo e cantando. No show-missa, enquanto todos se mostravam indignados pelo cruel pai e terrível madrasta que matam a própria filha, só uma pessoa alcançara a verdadeira paz.

O crime foi minuciosamente tramado. A madrasta nunca saiu de casa para ir ao supermercado. Antes de ir para casa encontrar o marido e irem juntos com os filhos ao supermercado, um lenço umedecido a desmaiou na saída do trabalho.

Em um ato frio, a mãe a arrastou para dentro do seu carro, dentro do qual tirou a roupa da desacordada e vestiu-a. Era o começo de seu disfarce. Com uma máscara de resina e esmalte, um penteado idêntico e a mesma maquiagem exagerada, ela passou pela madrasta.

Daí em diante a perícia acertou em tudo. E a criminosa também. Lá, no show-missa pelo fim da violência, ela apareceu sorrindo e cantando. Tinha alcançado sua verdadeira paz.

terça-feira, março 25, 2008

A cozinheirinha chinesa.

ou
"Intecâmbio".

Rua Domingos de Moraes, Largo do Ana Rosa, Vila Mariana. Na saída do metrô, o cheiro do tradicional e oleoso yakisoba de rua de São Paulo atrai misteriosamente quem passa. O “glande”, R$ 4,00. O “pequeno” (grafia certa, pronúncia engraçada), R$ 3,00. Jantar barato e com sustância.

- Por favor, qual é o tamanho do grande?
- “Glande”, “glande”. “Pequeno”, “pequeno”.
- Mas o grande é muito grande?
- “Glande” quatro “leais”. “Pequeno” “tlês” “leais”.
- Tá bom. Me vê um pequeno, por favor.
- “Pequeno” “tlês” “leais”.
- Isso, o pequeno.
- Tá bom.

Óleo, fatias de frango (bem pouco), repolho, sal, macarrão (muito macarrão) e shoio. Simples, rápido e saborosíssimo.

Enquanto apreciava a arte milenar de se cozinhar na rua e as unhas sujas da chef, habilmente ela jogou minha janta na pequena embalagem de isopor. Entreguei os três reais para ela e achei que a história tivesse acabado ali, como é o normal. Nada. O melhor estava por vir.

- Kasimoa urgima huanga?
- Como?
- Uruki bariowa jimegi?
- Desculpa, não entendi.
- Kuanda irishio! – Disse ela, em um princípio de grito, incrédula por eu não conseguir entendê-la.

Eu poderia ter simplesmente desistido daquele filme do Jet Li que estava vivendo e seguido meu caminho. Mas uma revolta patriótica me fez retrucar aquela imigrante e trabalhadora ilegal.

- Eu. Moro. Brasil. Eu. Falar. Português. – continuei. - Você. Mora. Brasil. Você. Falar. Chinês. – aqui falei ainda mais pausado. - Ou. Você. Falar. Português. Ou. Você. China.

– WAROSHI RAMIRO FUJIENCA! – Falar ela não falava, mas entendia bem. – KON LI RIROZIMA!
- Eu. Não. Entendo. Chinês!
- YOZIMA ZIROKI KIOGIMA SHIONIRO KON FURAJI.

Aceitei o desafio.

- Paralelepípedo.
- KUSIZ YOUN MUNRIZOCA!
- Inconstitucionalissimamente.
- KORISHO UJIMAKATO YAMAHA WAUOSHIMA NAGASASHO!
- Qüiproquó.
- ZIROKI KIOGIMA SHIONIRO KON FURAJI WAROSHI RAMIRO FUJIENCA!!!
- Cu.
- NAGASASHO WAUOSHIMA UJIMAKATO ZIROKI YOZIMA ZIROKI KIOGIMA SHIONIRO KON FURAJI!
- Miojo é muito melhor!
- NAGASASHO WAUOSHIMA UJIMAKATO ZIROKI YOZIMA ZIROKI KIOGIMA SHIONIRO KON FURAJI UJIMAKATO ZIROKI YOZIMA ZIROKI KIOGIMA SHIONIRO KON FURAJI!
- Não quero comprar tênis “nike”! (leia-se nique)
- ZIROKI YOZIMA ZIROKI KIOGIMA SHIONIRO KON FURAJI UJIMAKATO ZIROKI YOZIMA ZIROKI KIOGIMA SHIONIRO KON FURAJI!
- Eu não tenho culpa se o Stand Center fechou!
- KON LI RIROZIMA! – e desabou em lágrimas.

Droga. Tinha feito aquela cozinheirinha chinesa tão trabalhadora chorar. Estava me sentindo mal. Minha consciência pesou. Mesmo que ela não pague imposto, acaba alimentando milhões de brasileiros. Demonstrei meus sentimentos pra ela, como um pedido de desculpas. Acabei comprando um pen “dlive”.

segunda-feira, março 24, 2008

Resultado da pesquisa

ou
A verdade dói.

Não posso começar qualquer post sem antes pedir desculpas ao público fiel (mãe?) do Conversas Empolgadas que por algum tempo veio até aqui e não viu atualização. Desculpem-me. Descobri que ócio criativo é uma bela desculpa no trabalho que não funciona mais.

Além disso, nesse período de tempo, uma pesquisa de satisfação dos leitores (mãe?) foi finalizada. Eu não sabia que a singela pergunta: “Muitos (dos poucos) leitores que o Conversas Empolgadas conquistou dizem que os posts são muito, muito grandes. Sabendo que são raros os que chegam até o fim, até onde você lê?” podia trazer respostas tão sinceras. Eis o resultado oficial:

10% disseram que lêem apenas título e subtítulo, assim como lêem jornais.
15% sugeriram mais imagens para o blog.
21% culparam a quantidade de texto do blog pela ardência nos olhos.
52% confessaram que raramente chegam ao final de um texto.

Respostas sinceras, autor também. Mentira. Como diria Cazuza, mentiras sinceras me interessam. Custava alguém responder que pelo menos uma vez leu um post até o final? Ok, vou me especializar em haicai.

Quando eu era pequeno e estava contando uma história (o hábito é velho), odiava quando o interlocutor fingia que me escutava enquanto se embrenhava em seus próprios e mais interessantes pensamentos. Nessas horas, eu enfiava um fato absurdo no meio da história. Por exemplo: “Vovó! Vovó! Hoje no colégio eu fiz três gols! O primeiro foi de cabeça, com o cruzamento do Jéferson. O segundo foi de letra! E no último a Irmã Lucijane apareceu, levantou a saia e deixou a gente ver tudo!” Ela só afirmava com a cabeça.

Assim, não é a toa que hoje o Fidel Castro renuncia bem embaixo do nariz do capitalismo selvagem e da volta dos irmão Cavalera enquanto o Obama entra para história com um discurso sobre raças. Mal sabem eles que, freiras à parte, o Rio é onde eu quero morar. (mãe?)

Reflexos e transparências

ou
Refletindo transparências.

As pernas não mais aparentavam ter a força de antes. Tampouco tinham. Estavam bambas, fracas, gastas. Contudo, continuavam cruzadas elegantemente. Cocho, a direita, enquanto esticada e apoiada, acabava por tirar a esquerda do chão. Alinhadas, como a de uma top model, ou não, como a de um soldado da cavalaria, sustentavam todo o corpo, o que fazia parecer que eram maiores que este.

O corpo não era surpreendente. Sua aparência não era moderna. Seu estilo conquistava somente kitschs. Rechonchudo, tinha uma longa circunferência que chamava atenção por onde passava. Não era novo, também não era velho. Tinha as marcas do tempo, mas não escondia as rugas. Seu ar remetia seriedade e conhecimento. Quem o cruzasse julgava-o estar vindo ou indo de uma biblioteca, cinema ou teatro.

Pela manhã, era sempre visto com o jornal diário. E também com um pacote de papel marrom, onde se podia ler “Servir bem para servir sempre”. Pela praça, seu caminho de quase-aposentado, frequentemente a poeira o incomodava. A chuva também, mas com essa estava acostumado: um lenço à mão já resolvia seu problema.

Pela tarde, refletia as opiniões da TV, sua principal companhia, assim como pela manhã fazia com a manchete do dia. Foi do infindável tempo que passava no sofá que ficou cocho. Mas hoje de nada já importava, isso não o atrapalhava em qualquer atividade.

À noite, devido a pouca iluminação, resumia-se a se abandonar em uma poltrona. Antes do sono que não tinha, recebia sua visita. E ao contrário de todo o dia, essa hora não refletia nada. Apenas transparecia um olhar triste de mentira, de raiva, de remorso, de dúvida e de arrependimento. A visita se ia poucos minutos após ter vindo. Via-se então, por trás dele, as costumeiras lágrimas de seu dono, que o tirava calmamente do rosto. A perna direita era dobrada primeiro e a cocha vinha logo em seguida. No nariz do velho ficavam as marcas do peso de seu aro grosso e redondo. E com as mãos tremendo, o triste homem deitava-o em seu criado-mudo embaixo da janela, refletindo somente o nome do asilo no portão.